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Arqueologia
O vale do rio Ribeira é pouco conhecido quanto à sua
arqueologia, principalmente seu alto vale, onde se insere
a UHE Tijuco Alto. Dos trabalhos realizados até o
momento, os registros mais antigos correspondem a sambaquis
instalados na faixa litorânea, os quais ocorrem
em todo o litoral, desde o Rio de Janeiro até o
Rio Grande do Sul, com cronologia variável entre
6000 e 500 anos A.P.
Esses sítios arqueológicos caracterizam-se pela formação
de amontoados artificiais de conchas de moluscos em lentes superpostas, resultantes
de um padrão de subsistência baseado, principalmente, na coleta
de moluscos e, complementado com a pesca, caça e vegetais. Seu acervo
material é constituído basicamente por lascas utilizadas como facas,
raspadores, talhadores, quebra-coquinhos, bigornas, pesos-de-rede etc. São
freqüentes, ainda, artefatos elaborados em ossos, conchas, e dentes de animais,
correspondentes a pontas, agulhas, furadores etc. Adornos como colares e pingentes,
entre outros, também fazem parte de seu acervo.
No litoral norte do Estado do Paraná, integrando a bacia do rio Ribeira,
sítios concheiros foram registrados. Menos numerosos que os paulistas,
caracterizam-se como sítios rasos, apresentando bolsões de conchas
não compactadas, grande número de fossas com entulhamentos diversos
e sepultamentos. Seu acervo material é composto por uma indústria
lítica e óssea, semelhante à dos sambaquis, acrescida de
material cerâmico, comumente relacionado à tradição
Itararé.
Ainda na região costeira, existem registros de sítios cerâmicos
de tradição Tupi-guarani, situados em áreas próximas
ao Rio Ribeira: em Peruíbe, Iguape e em alguns sítios a céu
aberto e topo de sambaquis na baía de Guaratuba . Trabalhos mais recentes
efetuados por Chmyz no litoral paranaense, na baía de Paranaguá,
resultaram no registro de dois novos sítios arqueológicos relacionados
a essa tradição. A presença de grupos da família
lingüística Tupi-Guarani no litoral, inclusive, é confirmada
nos relatos de viajantes e cronistas do século XVI.
Na região planáltica da bacia hidrográfica do rio Ribeira,
as referências mais antigas de sua ocupação estão
relacionadas a sambaquis fluviais. Constituídos pelo acúmulo de
conchas de gastrópodes terrestres e sedimentos orgânicos, não
chegam a formar elevações no terreno, mas acompanham a topografia
dos terraços ou colinas onde se encontram instalados. Situados junto às
margens de rios apresentam restos de ossos de animais correspondentes a resíduos
alimentares que incluem, além de moluscos terrestres, peixes, aves e mamíferos
de diversos portes como veado, porco do mato, tatu, roedores etc., resíduos
de áreas de combustão, sepultamentos humanos e artefatos líticos
e ósseos.
Na década de 1970 foram encontradas novas áreas de sambaquis fluviais
no vale do Ribeira, localizados ao longo do rio Ribeira e seus principais afluentes,
desde a cidade de Ribeira até a de Pedro de Toledo.
Mais recentemente, em trabalho de salvamento arqueológico realizado na área
destinada a UHE Tijuco Alto (CHMYZ et alii, 1999), foi registrado sambaqui
fluvial na margem direita do rio Ribeira. Apresenta o mesmo padrão de
acumulação de moluscos, no entanto, foi associado a grupo
indígena da tradição ceramista Itararé. Esta região
foi ocupada, também, por outros grupos indígenas relacionados a
tradições culturais pré-ceramistas. Formados por bandos
nômades de caçadores-coletores e compostos por reduzido número
de pessoas que se dedicavam à exploração dos recursos naturais
existentes, deslocavam-se de forma constante para outras regiões, quando
a subsistência tornava-se difícil. Seus vestígios foram associados
a duas tradições arqueológicas: Umbu, mais antiga e Humaitá,
cronologicamente mais recente.
Sítios pertencentes à tradição Umbu foram registrados
desde o Estado do Paraná até o Rio Grande do Sul. Neste último.
Seus sítios, adaptados a ambientes com vegetação rarefeita,
apresentam acervo lítico muito desenvolvido, constituindo-se de objetos
e ferramentas de pequenas dimensões destinados à produção
de utensílios, à confecção de arcos e flechas, à caça
e ao descarne, à coleta de raízes, corte de madeiras, entre outras
atividades. São constantes, em sua indústria lítica, artefatos
de pequenas e médias dimensões correspondentes a pontas-de-flechas
pedunculadas com aletas e foliáceas, elaboradas em silexito, quartzito,
basalto, assim como raspadores de vários tipos, incluindo o com escotadura,
utilizado para o arredondamento e calibragem de hastes e paus de arcos. O acabamento
dos artefatos, comumente, era realizado através de pequenos lascamentos
secundários, os quais conferiam a forma das peças. Muitas, não
retocadas, apresentam sinais de seu uso intenso como facas, raspadores, furadores
etc. Nesta tradição, ainda são comuns ocupações
em abrigos rochosos com presença de pinturas rupestres.
No alto Ribeira, os trabalhos efetuados por De Blasis (1991) para elaboração
do primeiro EIA-RIMA referente à UHE Tijuco Alto, resultaram no registro
de 12 sítios líticos, possivelmente pertencentes a esta tradição.
A tradição cultural Humaitá também é observada
desde o estado de São Paulo até o Rio Grande do Sul., sendo que
foi constatado no primeiro planalto paranaense um sítio a ela relacionado,
nas nascentes do rio Ribeira.
Ocupando o topo ou o flanco de elevações, sempre nas proximidades
de cursos fluviais, sua indústria lítica corresponde, comumente,
a artefatos de grandes dimensões elaborados sobre núcleos de basalto
e arenito silicificado. Estão representados por picões, lâminas
de machados, trituradores e diversas modalidades de raspadores, quebradores de
coquinho e trituradores, indicando o desenvolvimento de atividades de caça
e coleta em ambiente florestado, úmido e quente.
Mais recentemente, a partir do início da era cristã, a região
planáltica do rio Ribeira, assim como os espaços circunjacentes,
foram sendo paulatinamente ocupados por grupos ceramistas, portadores de uma
economia diferenciada dos grupos caçadores–coletores pré-ceramistas.
Esses grupos praticavam a caça, pesca e a coleta de alimentos, eram detentores
de técnicas para fabricação de objetos e recipientes cerâmicos
destinados a preparar, assar, cozer e guardar alimentos e, também, possuíam
conhecimentos de horticultura. Isto lhes possibilitava a permanência mais
prolongada em um mesmo local e a formação de grupos mais numerosos.
Os grupos ceramistas correspondem a dois povos culturalmente diferentes e estão
representados por duas tradições arqueológicas: a Tupi-guarani
e a Itararé. Sítios relacionados à tradição
Tupi-guarani foram registrados na faixa litorânea do Ribeira e, em áreas
planálticas circunvizinhas.
Até o momento, os estudos realizados no vale do Ribeira, principalmente
no seu médio e alto vale, apontaram sítios arqueológicos
relacionados à tradição arqueológica Itararé.
De sua cultura material encontram-se recipientes cerâmicos de pequenas
dimensões. O material lítico é mais numeroso e os artefatos
são constituídos por facas, vários tipos de raspadores,
talhadores, picões, furadores, alisadores, quebradores de coquinhos, lâminas
de machados. Nos sítios arqueológicos pertencentes a esses grupos
são encontradas depressões no solo. Essas estruturas são
utilizadas exclusivamente nas regiões frias e, quase sempre, estão
relacionadas a habitações.
Vinculada ao período histórico, quando da ocupação
Ibérica, uma terceira tradição ceramista foi registrada
no vale do rio Ribeira: a Neobrasileira. Resultante da miscigenação
havida entre índios e europeus e, provavelmente africanos, seus sítios
se caracterizam pela presença significativa de cerâmica doméstica
confeccionada por grupos familiares, através de técnicas indígenas
(de origem Tupi-guarani) e/ou africanas, mas com evidências da influência
do europeu através da modificação de suas formas, bases
e decoração plástica. Esses assentamentos, pela gradual
modificação da tecnologia empregada em sua cerâmica e, com
o acréscimo, em seu acervo, de restos de objetos industrializados, tais
como cerâmica torneada e moldada, louças, metais e vidros, definem
momentos distintos da ocupação do território. |
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